sábado, 21 de fevereiro de 2015

Dragão de Fogo

O Dragão começara a amansar, mas de fato, era um ser feito de fúria. Vinha do pó, esquentado pelo calor da fúria e no fogo da fúria queimava-se novamente e voltava ao pó. Como uma Fênix, o Dragão conseguiria ressurgir das próprias cinzas e recomeçaria um ciclo vicioso de tensão e conturbação.

Entretanto, o Dragão decidiu voltar ao pó de uma forma diferente, abdicando da própria essência, a fúria. Decidiu alterar seus critérios de análise da realidade: o certo e o errado já não existia mais. Outrora, o Dragão, com seu senso de justiça, buscava disseminar o certo absoluto sob qualquer custo, para que o errado fosse extinto e no mundo reinasse em suprema paz, mas percebeu que tal sentimento apenas continuaria o ciclo que faria apenas ele mesmo queimar. 

Não existe mais certo e errado absolutos. Certo e errado agora eram meras percepções subjetivas e conceitos intrínsecos à individualidade de cada ser vivente. Portanto, deveria apenas guardar suas noções de realidade para si, em vez de tentar disseminá-las, pois essas noções deveriam agora servir para que vivesse bem em sua individualidade, não para enxergar um objetivo para o mundo todo.

Já não poderia mais dizer que um assassino estaria errado, embora não compactuasse com tal prática. Também não poderia dizer que uma alma caridosa que ajuda necessitados estaria certo, embora agora compactuasse com tais práticas. O que nos faz bem, compactuamos; o que não faz bem, discordamos. Mas esse compactuar ou discordar deve agora, para o Dragão, ser apenas interno, porque também percebera que por mais baseados que fossem seus argumentos, se os demais seres vivos preferissem não compreender tal lógica, ou mesmo que tivessem uma lógica diferente, jamais aceitariam. 

Então o Dragão decidiu apagar sua chama aos poucos, compreendendo que os atos e atitudes que outrora julgava errôneos, na verdade são uma percepção diferente da sua, que entretanto poderia ser a sua. O Dragão via em sua frente o universo e as estrelas, e percebera quão pequenas eram suas tentativas. Percebeu-se como parte do universo e sentiu o universo dentro de si. 

O Dragão do Fogo era apenas um dragão de fogo.

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